21 de fevereiro de 2018

vamos falar de trabalho?

Repetindo-me um pouco, eu não posso garantir que este post vá ser útil para alguém, porque só vos posso falar do que sei por experiência.

Para quem não sabe, eu estava a trabalhar numa loja. Contudo, percebi, logo nos primeiros dias, que aquela não poderia ser uma solução a médio/longo prazo porque não me oferecia a estabilidade que eu procuro nesta fase da minha vida, em que a ideia é mesmo assentar arraiais. Por se tratar de uma cadeia de lojas, eu só tinha poiso certo durante a licença de maternidade de uma das funcionárias, e depois o mais provável seria começar a rodar por todas as lojas, o que não seria um problema se fossem relativamente perto de mim. Mas não eram.

Por gostar do trabalho propriamente dito, eu decidi ficar e ir procurando, com calma e sem a pressão do desemprego, algo que fosse mais certo, mais estável, e geograficamente mais favorável aos meus planos, enquanto ganhava experiência numa área diferente daquela em que tenho formação. O plano era perfeito, portanto. Só que não.

O primeiro ponto que eu estranhei, foi nunca ter assinado contrato algum. Se alguma vez tiverem utilizado o site do IEFP para se candidatar a ofertas de emprego, saberão que estas têm informação acerca do tipo de contrato, e eu sabia daí que se trataria de um contrato sem termo. Foi-me dito então que o meu contrato começaria a partir de determinada data, mas eu nunca vi documento algum. 

A dada altura, tratei de me informar: foi-me então explicado que, atualmente, os contratos sem termo não têm qualquer obrigatoriedade de ser celebrados por escrito e, consequentemente, assinados. Existia sim, o que me parece óbvio, a obrigação, por parte da entidade patronal, de fornecer ao funcionário os documentos onde estivessem expressas as condições do dito contrato. Por outras palavras, a informar os trabalhadores onde é que estão metidos.

Sabia que tinha todo o direito de ter acesso a esse documento mas, por uma cobardia infantil, por temer ser mal interpretada, por, sei lá, não fazer a menor ideia sobre quanto mais tempo me restaria na dita empresa e não estar para arranjar confusões, nunca o pedi. E, de certa forma, ainda bem.

Agora, eu não fazia a menor ideia de quais eram as condições, do tempo que teria dar de pré-aviso, quais eram os meus direitos e deveres quando tivesse como sair. Foi aí que entrou a tal rapariga: ela ligou-me, a propósito de uma entrevista de trabalho à qual eu não fui, porque a pessoa é estúpida e certinha e, uma vez que não foi possível agendar a entrevista para um horário em que não comprometesse o meu trabalho, disse que não. E, vejam só, isto aconteceu exatamente na véspera do que me fez saltar a tampa.

O que ela me explicou foi que, neste caso, não conhecer o meu contrato de trabalho jogava a meu favor: o código do trabalho prevê, no mínimo, 90 dias de período experimental (e atenção que, dependendo dos cargos e da responsabilidade, este período pode ser superior), durante as quais eu poderia fazer a denúncia de contrato sem pré aviso e sem ter de pagar uma indemnização. Este período pode ser encurtado se ambas as partes estiverem de acordo mas, já que eu, em momento algum, tinha tido conhecimento das condições contratuais, essa hipótese ficava automaticamente inviabilizada. 

A rapariga aconselhou-me então a tentar sair antes do término do período experimental, dado que depois seria sempre obrigada a um pré aviso de 30 dias, o que me dificultaria a vida na procura de emprego, já que uma das exigências, em quase todos os casos, é a disponibilidade imediata. 

Há mais! Apesar de esta ser uma situação rara, se estiverem a trabalhar para uma empresa onde nunca vos seja oferecido qualquer tipo de contrato, aplica-se o mesmo período experimental de 90 dias. Ao 91º dia, vocês são, oficialmente, trabalhadores efetivos naquela empresa. Excluíndo, como é óbvio, quem trabalha a recibos verdes.

Entretanto, as coisas começaram a correr mal mas, sobre esse ponto, não me vou alongar porque não sou de cuspir no prato onde comi. Apesar de tudo, foi-me dada uma oportunidade numa altura em que, infelizmente, há pouca gente a querer dar oportunidades a jovens, a não ser que tenham tido a sorte de nascer já com 5 anos de experiência profissional em vários setores diferentes. Isto é, que sejam as primas direitas do dr. Cunha.

Deixou de me fazer qualquer sentido continuar, e a minha saída tornou-se bastante mais urgente do que previa. No entanto, apesar de saber que a razão estava do meu lado e poderia simplesmente ter alegado justa causa no motivo da minha rescisão de contrato, optei por não o fazer. Socorri-me antes do facto de ainda me não ter completado os 90 dias, e saí sem confusões de maior. 

Podem encontrar a informação relativa ao dito período experimental nos artigos 112º e 114º do código do trabalho. 

20 de fevereiro de 2018

duas voltas na fechadura

A vida é toda encruzilhadas e momentos feitos para julgarmos que é agora ou nunca. Se calhar a coisa nem é bem assim, e esta ideia vem-nos de uma certa imaturidade, que não morre com os anos, e com a pressa de ser. Eu cá não sei mas, por via das dúvidas, não arrisco.

Poderia repetir-vos o clichê de as coisas nunca serem como esperamos, mas disso estamos nós todos cheios e não há nada a fazer; a vida é toda encruzilhadas, toda isto ou aquilo, toda escolhas que podem ou não ser as mais acertadas. Às vezes são, e corre tudo bem. Outras vezes, não são, mas as pessoas ajeitam as almofadas e deixam-se estar sossegadas a ver no que dá. Depois há os outros, os chatos, os que correm na direção oposta assim que se apercebem de que se enganaram no caminho. Sou dessas, das últimas.

Não me é sempre fácil escolher; volta e meia ainda dou por mim, miúda, estagiária no mundo dos adultos, finco o pé e recuso-me a tomar decisões mais drásticas do que escolher entre o gelado de baunilha e o de chocolate. Depois lá me abano para me obrigar a aceitar que não posso carregar no snooze eternamente para adiar mais um bocadinho a minha entrada no mundo das gentes crescidas, que isto de crescer é um caminho sem volta e, assim a brincar, parece que já cá cheguei. Há que me comportar como tal.

Portanto, o momento pedia decisões rápidas e certeiras, sem grande espaço para os ses e os mas habituais. Era sim ou sopas, agora ou nunca - claro que este nunca não era um nunca, era o acréscimo de dificuldades e o arrastar de uma situação que considero inadmissível. Como tenciono ter um futuro que não passa pela prostituição, fiz-me à vida. E aqui estou eu.

18 de fevereiro de 2018

o rei vai nu!

Há uns tempos, e creio que a propósito de um vídeo no youtube onde esse mesmo tema era abordado, li vários comentários de mulheres a dizerem que é sempre extremamente embaraçoso e desconfortável ter de ir ao ginecologista. Apercebi-me, mais uma vez, de que sou anormal.

Não me faz confusão alguma - calma que não estou a dizer que adoro, nem tão pouco vou ao médico por conta de uma dor de ouvido e começo a desapertar as calças. Mas também não me incomoda e, possivelmente, isto deve-se ao facto de trazer na bagagem alguma experiência em hospital; ver pessoas nuas, de todas as idades, fazia parte do meu trabalho diário e a coisa deixa de ter qualquer importância. É só trabalho.

Agora, há uma coisa que é, definitivamente, embaraçosa e eu não vejo as pessoas a falarem disso. O que é uma ida ao ginecologista... perto de uma ida à esteticista? Porque é que se queixam de um profissional de saúde e nem piam quanto a ter uma estranha a manejar as nossas partes pudendas?

Vamos começar pelo facto de estarmos ali, quase em posição de parir, enquanto a gaja espalha cera lá em baixo com a mesma felicidade com que nós barramos nutella numa torrada. Se cometermos o erro de demonstrar aquele esgar de dor de quem sente a parreca a cozer, ainda se mete a soprar lá para baixo, como se lhe tivessem acabado de cantar os parabéns e estivéssemos a meio de uma festa. Yaaaay... só que não.

Enquanto uma pessoa está ali, divivida entre a vontade de se livrar daquela situação o quanto antes e o desejo secreto de que a gaja deixe estar lá a cera, só mais um bocadinho, porque somos pessoas jovens e não estamos preparadas para sentir a alma a ser-nos arrancada sem dó nem piedade, ZÁÁÁÁS. A criatura dá aquele puxão, quase fatal, que nos faz gritar até acordar três marcianos e outro, meio confuso e meio orgulhoso, sair de cima da marciana-fêmea. 

O embaraço acaba aí?
Nãaao. É que depois, ainda não contente com o nosso orgulho morto e a vergonha tomar o lugar do nosso segundo nome, dá umas pancadinhas para atenuar a dor. Não dói nada, não dói nada. Claro que não dói. A ti, não!

Portanto, na ausência da hipótese de se pedir anestesia geral, ou a epidural que fosse, a pessoa decide não voltar. Até porque, ao preço a que estão as rendas hoje em dia, nem é assim tão má ideia mudarmo-nos para uma caverna e aceitar as nossas origens. Isso, ou encontrar meios menos tortuosos de exterminar o pêlo - deixo convosco e com a vossa imaginação.